A pratica leva a perfeição: falar idiomas só traz benefícios

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Crianças bilíngues que tiveram mais prática em trocar de idiomas, são melhores em certos tipos de resolução de problemas.

Montreal, 03 de fevereiro de 2016 – Estima-se que metade da população do mundo fale duas ou mais línguas. Mas há benefícios ainda não descobertos em ser bilíngue? Uma pesquisa da Concordia University, revelou que crianças bilíngues tem mais habilidades em resolver problemas do que crianças não bilíngues.

Os resultados de um estudo recentemente publicado pelo Journal of Experimental Child Psychology, revela que as crianças bilíngues são melhores do que as monolíngues em um determinado tipo de controle mental, e que as crianças que tem mais prática falando as duas línguas, possuem ainda maiores habilidades do que as outras.

Os bilíngues podem agradecer por essa habilidade, ao difícil trabalho que é a troca de um idioma para outro. “Esta mudança torna-se mais frequente à medida que as crianças crescem e o tamanho de seu vocabulário aumenta”, diz Diane Poulin-Dubois, professora no Departamento de Psicologia da Universidade de Concordia e autora sênior do estudo.

“Portanto, o desempenho superior nessas tarefas, parece ser devido à reforçadas capacidades de flexibilidade e atenção seletiva cognitiva dos bilíngues, pois eles têm maior experiência na troca de idiomas em vocabulário expressivo.”

Poulin-Dubois e Cristina Crivello, estudantes de pós-graduação no Centro de Pesquisa em Desenvolvimento Humano de Concordia (CRDH), lideraram um grupo de pesquisadores * em uma investigação longitudinal, que comparou crianças bilíngues aos seus pares monolíngues, acompanhando como os pequenos ganharam maior vocabulário em cada uma de suas duas línguas.

Para o estudo, os pesquisadores avaliaram os vocabulários de 39 crianças bilíngues e 43 monolíngues, com 24 meses e, depois novamente com 31 meses. Durante a segunda avaliação, os pesquisadores também tiveram jovens participantes para realizar diversas tarefas, que testariam sua flexibilidade cognitiva e habilidades de memória.

“Na maior parte, não houve diferença entre as crianças bilíngues e monolíngues”, diz Poulin-Dubois, que também é membro do CRDH. “Mas isso mudou dramaticamente quando aplicamos o teste de inibição de conflitos, e as diferenças foram evidentes nas crianças bilíngues, cujo o vocabulário tinham aumentado mais’’.

Neste caso, a inibição conflito refere-se ao processo mental de substituir uma regra bem aprendida que você normalmente presta atenção.

Para avaliar as habilidades de crianças nessa área, Crivello, que realizou a pesquisa como parte de sua tese de mestrado e é o primeiro autor do estudo, administrou dois testes:

  1. Categorização reversa: participantes foram instruídos a colocar um conjunto de pequenos blocos em um pequeno balde e grandes blocos em um grande balde. Em seguida, as instruções foram trocadas – grandes blocos no pequeno balde e pequenos blocos no balde grande.
  2. Forma de conflito: aos participantes foram mostradas fotos de frutas de diferentes tamanhos, e pediram para nomeá-las. Em seguida, mostraram uma nova série de imagens, com uma fruta pequena posicionada dentro de uma grande. As crianças, foi pedido que apontassem para a fruta pequena.

Não foi surpresa para os pesquisadores que as crianças bilíngues obtiveram um desempenho significativamente melhor nas tarefas de inibição de conflitos do que os seus pares monolíngues.

“A troca de linguagem subentende-se vantagem para os bilíngues em tarefas de conflito”, diz Crivello. “Na inibição conflito, a criança tem de ignorar determinadas informações – o tamanho de um bloco em relação a um balde, ou o fato de uma fruta estar dentro de outra. Isso mostra a experiência em ter que alternar entre idiomas, usando uma segunda língua, mesmo quando a primeira língua seja a opção mais acessível.

A característica única do estudo foi a constatação de que, quando mais as crianças se alternam entre os idiomas, mais benefícios isso traz a elas. Dentro do grupo bilíngue, aquelas crianças que tinham conhecimento maior de “doublets” – pares de palavras de cada língua, como cão/chien, obtiveram desempenho ainda melhor nas tarefas de inibição de conflitos.

“Até o final do terceiro ano de vida, a criança bilíngue utiliza duas palavras para a maioria dos conceitos em seu vocabulário, então jovens crianças bilíngues gradualmente adquirirem mais experiência em alternar entre idiomas“, diz Poulin-Dubois.

**** Parceiros na pesquisa: esta pesquisa foi apoiada pelo Departamento de Ciências Naturais e Engenharia do Conselho de Investigação do Canadá (NSERC) e pelo Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano. Os co-autores adicionais do estudo são Olivia Kuzyk e Monica Rodrigues (Universidade Concordia), Margaret Friend (Universidade Estadual de San Diego) e Pascal Zesiger (Université de Genève).

Artigo originalmente publicado aqui.